Posts by Mário Ventura

Quelimane e a sua história, por Abdul Carimo

Agosto 2nd, 2017 Posted by Caleidoscópio 0 thoughts on “Quelimane e a sua história, por Abdul Carimo”

A história de Quelimane é parte da História de muitas histórias que fazem a História deste multiétnico, cultural, religioso e colorido Moçambique.

O que se conhece sobre Quelimane é-nos transmitido por via da tradição oral e de algumas obras escritas, sendo datada de 1154 a primeira notícia, através de um cronista árabe de nome El Edrisi, no relato perante a corte italiana, referindo-se a “Dendema”, um burgo situado na área da cidade, supostamente antepassado do Quelimane presente: Diz a tradição que Vasco da Gama, ao chegar à terra de Quelimane, entre 22 e 25 de Janeiro de 1498, entrou no estuário do rio Qua-Qua, que baptizou como rio dos Bons Sinais; ao desembarcar, implantou, na praia de Palane, que na altura denominou de S. Rafael, um pesado padrão de pedra com as armas reais de Portugal e a cruz lá talhadas.

Passando por várias transformações políticas e administrativas, desde a sua fundação, Quelimane foi, ao longo dos séculos, povoado árabe, feitoria, vila, nome de distrito, circunscrição e cidade, e por ela passaram diferenciados povos, antes dos portugueses, com objectivos puramente comerciais, subordinando-se à Capitania do Sena em 1500. Nos primórdios dos anos 1600, passa a ser governada por um capitão de Feira e, em assuntos de justiça, sob a esfera da Relação de Goa. Foi nesta época que se introduziu a Política dos Prazos, tendo uma tal D. Maria da Guerra aforado várias terras.

Quelimane integrava, no século XV, a rede comercial muçulmana dominada por Quíloa, que se estendia por vários pontos da costa oriental africana. A sua fundação relacionou-se com o alargamento dos centros de exploração aurífera para o norte do planalto Karanga, acompanhando a expansão do Estado de Monomotapa.

A presença continuada dos portugueses está registada desde 1544. Nos primeiros anos de seiscentos, aumentaram o controlo da região, após a cedência das minas do Monomotapa, pelo Tratado de 1607, com a colonização do Vale do Zambeze.

A concorrência europeia, patente nos cercos holandeses à Ilha de Moçambique em 1607 e 1608, constituía uma ameaça à hegemonia portuguesa na região, suscitando ordens recorrentes da coroa para fortificar as trocas do Zambeze, cabendo ao general D. Estevão de Ataíde (1610-1613) a construção do forte de Santa Cruz, na Ponta Sul da Barra.

Subsequente ao Tratado de 1629, em que o mutapa Mavhura Mhande se reconheceu vassalo da coroa portuguesa, foi gizado um novo programa régio de colonização. A região do delta, antes sujeita ao capitão de Sena, foi dividida, em 1633, em duas capitanias, a do Luabo e a de S. Martinho de Quelimane.

Durante Seiscentos, Quelimane afirmou-se como o porto de entrada no Zambeze, em detrimento do Luabo. A entrada na sua difícil barra, com restingas de pedra e bancos de areia, exigia marinheiros experientes, os pilotos muçulmanos idos de Moçambique.

Cerca de 1634 notava-se uma dúzia de casas ao longo do rio, e no final da centúria elas eram 14 ou 15. Os edifícios cobertos de colmo e raramente de telha eram fabricados mormente em taipa e as habitações eram rodeadas de hortas e cercadas por fortes paliçadas. Em volta, distribuíram-se vastos palmares e pomares e as casas dos escravos. Na povoação, existia uma igreja, a de Nossa Senhora do Livramento, paroquiada pelos jesuítas, o hospício dos dominicanos e a casa dos padres da companhia de Jesus. No espaço urbano, destacava-se o Chuambo, um forte de madeira, sem guarnição militar, que abrigava os moradores das investidas dos chefes africanos. A pressão dos povos maraves, que, vindos do norte, acometeram nessa altura a região, contribuiu para que os macuas procurassem a protecção do forte português. Desenvolvendo uma identidade distinta, os macuas do litoral tornaram-se conhecidos por chuabos (gente do forte).

Depois de meados de Setecentos, no contexto das reformas subsequentes à autonomia de Moçambique em relação à India (1752), ocorreu uma notória dinamização do porto e da povoação. A coroa recuperou as ordens para fortificar a barra, após terem encalhado aí dois navios holandeses. A construção do forte de Nossa Senhora da Conceição, em Tangalane, na Ponte norte da barra, foi conduzida pelo engenheiro António José de Melo.

De uma povoação com cerca de 30 moradores, dos quais apenas 2 portugueses, em 1737, Quelimane passa à categoria de Vila na sequência de ordens régias de 29 de Maio de 1761, começando a gozar desse estatuto apenas em 6 de Julho de 1763. É instituída a câmara municipal, conservando o nome de S. Martinho de Quelimane.

As oportunidades do negócio esclavagista traduziram-se num assimilável aumento do número de moradores proeminentes: 20 em 1780; 30 em 1790 e 65 em 1822. Apesar do enriquecimento dos seus moradores e do interior das suas casas, a vila manteve-se como um conjunto de quintas dispersas por dois ou três arruamentos irregulares, frequentemente alagados. As novas edificações municipais, a casa da câmara e o pelourinho surgiram nos anos 1770. A igreja de Nossa Senhora do Livramento foi mandada reconstruir pelo governador e capitãomor general Baltazar Pereira do Lago em 1776, mas só foi concluída em 1786, por António de Melo e Castro.

No decurso dos anos oitocentos, a vila passa a capitania e capital do Distrito do mesmo nome, época em que já se exportava pelo seu porto, para além de escravos, ouro e marfim, dando-se início à criação das companhias majestáticas e outras de grande dimensão que se dedicam à exploração da copra, em regime de grandes plantações, substituindo os anteriores prazos.

A 24 de Novembro de 1853 é restabelecido o governo de Quelimane, vivendo nessa altura na urbe 355 cristãos, 120 muçulmanos e 17 escravos libertos.

Em 1857 dá-se início à construção do primeiro edifício destinado à Câmara Municipal, e em 1858 Quelimane é a capital da Zambézia, topónimo criado a 4 de Fevereiro do mesmo ano, vivendo na vila 9254 escravos e 59 libertos. Passa a sede de Governo em 1860.

Quelimane foi palco de grandes festejos, por ocasião da firmação do “Mapa Côr-de-Rosa” protagonizada por Capelo e Ivens, na tentativa de Portugal estabelecer a ligação entre Mocâmedes, no oceano Atlântico, e Quelimane, no Oceano Índico.

Em 1878, Quelimane assiste ao surgimento das primeiras revoltas camponesas, tendo tomado parte activa na sua repressão o prazeiro Mariano Henriques de Nazareth e sendo, na altura, presidente da Câmara Municipal de Quelimane o prazeiro José Bernardo de Albuquerque. Os sobreviventes foram acantonados em frente à Central Eléctrica de Quelimane.

Quelimane foi desde sempre um centro cultural e literário, tendo editado o “Clamor Africano”, um dos três jornais periódicos, de combate à exploração colonial, fundado entre 1886/1894 pelo jornalista angolano Alfredo Aguiar, chegado a Moçambique em 1879.

Há referências de circularem em Quelimane e Tete selos próprios entre 1893 e 1913 e, apenas em Quelimane, entre 1913 e 1920.

De 1904 a 1922 saíram do porto de Quelimane trabalhadores recrutados para S. Tomé e Príncipe e para o Transval, registando-se, até 1907, a saída de 8141 trabalhadores. Nesse período, Quelimane acolheu a visita do Príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. Luís Filipe que, no ano seguinte, viria a ser assassinado juntamente com o seu pai, o Rei D. Carlos.

Em 1922 entra em funcionamento a linha férrea Quelimane-Mocuba e, no âmbito associativo, várias organizações socioeconómicas vêm os seus estatutos aprovados: o Clube de Quelimane e a Associação do Fomento do Distrito de Quelimane (1924); o Grémio Francisco Luís Gomes (1932); o Sporting Clube de Quelimane e o Grupo Desportivo Zambeziano (1936); a Associação Hindu e o Aeroclube da Zambézia (1937); o Sport Lisboa e Benfica (1954) tendo, nessa data, o Sporting Clube de Quelimane sido declarado Pessoa de Utilidade Pública e aprovado o Estatuto do Grémio dos Plantadores de Chá.

 


Fontes

Celebração dos 75 anos da elevação de Quelimane a cidade

Nos 75 anos de Quelimane

Agosto 2nd, 2017 Posted by Atividades, Notícias 0 thoughts on “Nos 75 anos de Quelimane”

Quelimane meu amor
Tu és a minha querida cidade
Rainha da Zambézia
Terra de Paz e de Bondade

 

Iniciávamos, com esta primeira quadra da letra e música do saudoso professor de canto coral Tomás Firmino, a entoação do Hino da cidade de Quelimane em todas as efemérides a ela dedicadas. Quando, a 21 de Agosto de 2017, Quelimane soprar, uma vez mais, as velas de mais um aniversário da sua elevação à cidade, desta feita completando 75 anos de existência, certamente que nós outros, os mais velhos, cantarolaremos do que dele ainda nos lembrarmos.

Elevada à categoria de cidade pela portaria número 1, de 21 de Agosto de 1942, publicada no suplemento do BO número 32/1942, formalizando o despacho do então Ministro do Ultramar, Francisco Vieira Machado, na então cidade de Lourenço Marques, Quelimane veste-se de cor e alegria para os seus citadinos, bem como para receber os zambezianos e amigos da Zambézia no que se espera venha a ser uma grandiosa festa de arromba.

O que parecia não despertar de um sonho, desde 2011, irrompeu com força e vigor, e eis que chegam a Moçambique largas dezenas de zambezianos na diáspora, a caminho de Quelimane, vindos de diversos quadrantes do mundo para a grande festa e convívio desportivo, cultural e gastronómico a acontecer entre os dias 18 e 27 de Agosto de 2017.

Não faltarão as habituais corridas de bicicleta e de almadia, a que se juntará um carnaval flash 2017 e tradicional baile na antiga Associação Africana, abrilhantado por conjunto musical com músicas dos anos 60/70.

Em momentos mais solenes não deixaremos de prestar a merecida homenagem ao saudoso Né Afonso, o Tio Turutão, que regressa à terra que o viu nascer para o eterno repouso.

Assistiremos ainda ao lançamento do livro “Lampejos da Minha Memória” do Zambeziano António da Conceição Ruas e seremos, todos, testemunhas da apresentação pública da Associação dos Bons Sinais, entidade de cariz cultural e social sem fins lucrativos que se propõe promover o desenvolvimento de actividades diversas visando o levantamento do património histórico da Província da Zambézia e consequente mobilização de recursos e apoios para a sua recuperação.

Na praia de Zalala, à beira do Índico, receberemos os nossos compatriotas vindos de além-mar para o habitual e tradicional manjar dos deuses.

Manuel de Araújo, edil de Quelimane

Manuel de Araújo em Bona

Maio 9th, 2017 Posted by Atividades, Notícias 0 thoughts on “Manuel de Araújo em Bona”

O edil de Quelimane, Manuel de Araújo, está em Bona num ciclo de encontros em torno das boas práticas ambientais.

A DW publicou um artigo mais extenso a dar conta da visita de Manuel de Araújo. Pode consultar o artigo referido clicando nesta ligação

Quelimane no episódio da série One Square Mile da BBC World News

Quelimane na BBC World News

Maio 9th, 2017 Posted by Atividades, Notícias 0 thoughts on “Quelimane na BBC World News”

A BBC World News criou uma série documental chamada One Square Mile, onde os seus repórteres percorriam algumas cidades do globo e conversavam com os locais no sentido de perceberem as suas preocupações e motivações para assim descobrirem a génese desses mesmos sítios.

Ora, um dos episódios desta interessante série, passa-se exatamente em Quelimane. O repórter Leo Johnson veio conhecer a “milha quadrada” de Quelimane, descrevendo-a como “a capital carnavalesca da África, com seus gigantes camarões tigres e a arquitetura Bauhaus-encontra-Art-Deco, tudo na selva moçambicana”.

Vale a pena ver o episódio na sua totalidade: ele foi publicado no website oficial da BBC World News e pode ser visualizado por todo o mundo. Clique aqui para aceder ao episódio de One Square Mile em Quelimane

Né Afonso, uma grande figura de Quelimane

Né Afonso vai ser homenageado

Maio 8th, 2017 Posted by Atividades, Notícias 0 thoughts on “Né Afonso vai ser homenageado”

Vida e obra de Ernesto Edgar Santana Afonso, ou simplesmente Tio Turutão, como era conhecido pela criançada em Moçambique, serão retratadas em disco a ser lançado em Junho, pela banda TP50 em parceria com a Rádio Moçambique, no âmbito das celebrações do dia internacional da criança.

Intitulado “acriançando: tributo a tio Turutão”, o disco será composto por 12 músicas infantis, entre originais do TP50 e outras na sua maioria da autoria de Né Afonso, que se destacou na promoção de música e teatro radiofónico infantil nas décadas de 1070 e 1980.

A iniciativa de homenagear este ícone da música infantil nacional surgiu das propostas que cada elemento do grupo foi apresentando nas reuniões de trabalho. Tio Turutão foi um personagem criado por Ernesto Edgar Santana Afonso, mais conhecido por Né Afonso, que se destacou na música e teatro radiofónico durante a época pós independência nacional.

Num momento desprovido de meios e numa época histórica dificil para o país, Tio Turutão foi um personagem essencial no imaginário infantil. Caracterizado por músicas educativas, o seu papel foi de elevado impacto no crescimento e desenvolvimento das crianças da época, hoje adultos que determinam a nossa sociedade.

Ao ter como objectivo a gravação de um CD educativo, o TP50 em parceria com a Rádio Moçambique decidiu que o mesmo fosse um tributo a este artista, animador e educador cuja obra foi socialmente relevante e de impacto considerável.

Este tributo será apresentado em espectáculo marcado para o dia 3 de Junho, mês em que celebramos a criança africana e mundial.

Leia aqui na íntegra o contrato-programa celebrado entre a Associação dos Bons Sinais e a diocese de Quelimane

O protocolo celebrado com a diocese de Quelimane

Abril 24th, 2017 Posted by Protocolos 0 thoughts on “O protocolo celebrado com a diocese de Quelimane”

Já está disponível para visualização o contrato-programa que materializa o protocolo celebrado entre a Associação dos Bons Sinais e a diocese de Quelimane.

A Associação dos Bons Sinais publica aqui o documento para que todos possam ler o mesmo na íntegra e compreender com maior detalhe o projeto.

Depois de celebrado o presente contrato, estão agora a ser elaborados os documentos complementares ao projeto, cujos nomes e datas previstas de conclusão podem ser encontrados aqui em baixo:

  1. O projeto (Abril de 2017);
  2. Protocolo de utilização (Abril de 2017);
  3. Plano de dinamização (Maio de 2017);
  4. Plano de execução (Junho de 2017);
  5. Plano Financeiro (Julho de 2017);
  6. Orçamento (Julho de 2017).

Clique aqui para aceder ao documento em pdf: Contrato-Programa Sé Velha

Mozambique kids

Apadrinhar os estudos de uma criança

Abril 19th, 2017 Posted by Atividades 0 thoughts on “Apadrinhar os estudos de uma criança”

As crianças são uma grande riqueza de África e uma esperança para o seu futuro. Mas, infelizmente, poucas têm os seus direitos assegurados. Muitas não podem estudar. E a educação é a única forma de poderem mudar o seu destino.

 

“As crianças são flores que nunca murcham.”

Samora Machel

 

A Associação dos Bons Sinais (ABS) aplaude a iniciativa da esposa do Presidente do Município de Quelimane que lançou o projeto social 1 padrinho 1 criança na escola! Trata-se do financiamento de uma pequena bolsa de estudo para custear o uniforme e o material escolar.

O apadrinhamento de uma criança custará 2 mil meticais/ano letivo (apenas 27 €!) dando ainda direito a um par de sapatos.

A ABS, através dos seus membros, decidiu apoiar desde já 75 crianças para o próximo ano letivo. Mas queremos aumentar este número!

Junta-te a nós e podemos proporcionar a muito mais crianças da Zambézia a oportunidade de estarem na escola e melhorarem o seu futuro. Envia-nos este valor para a conta que temos aqui na nossa página Donativos. Ficarás a saber o nome das crianças que estás a ajudar e o local onde estudam.

Comissão dos Bons Sinais, na Matola com o Bispo de Quelimane

Na Matola, com o Bispo de Quelimane

Abril 17th, 2017 Posted by Atividades, Fotografias 0 thoughts on “Na Matola, com o Bispo de Quelimane”

Fotografia de uma visita de uma Comissão dos Bons Sinais à Matola, com o Bispo de Quelimane.

Fotografia do Carnaval de Quelimane,

Os carnavais da minha memória, por Lo Chi

Abril 17th, 2017 Posted by Caleidoscópio 0 thoughts on “Os carnavais da minha memória, por Lo Chi”

Lo ChiSem dúvidas que o carnaval mais emblemático e marcante da cidade de Quelimane, no tempo antes e pouco depois da independência, foi o carnaval do Benfica.

Antes, porém, importa recordar que, antecedendo esses carnavais dos grandes salões ou dos ocorridos em campos gimnodesportivos, toda criança tinha o seu carnaval de bairro, quer fosse o bairro Kansa, o Vila Pita, o Sinacura, o Brandão, o Moreira, o Torrone, o Sangalivera, ou mesmo o Saguar ou o Mapiesua, em que os putos se juntavam em grupos de malta amiga, mascaravam-se, sem grandes requintes, e deambulavam pelo bairro, cantando e dançando, muitas vezes extasiando espectadores transeuntes, de tal jeito que estes acabavam dando-lhes uns trocos. Podemos situar essa actividade até ao princípio da escolaridade, na altura designada de ciclo preparatório, que seriam hoje a quinta e sexta classes claro com um matulão desocupado, normalmente descolarizado, como chefe de equipa e guardião do grupo. Lá para os quinze e desasseis anos, mais crescidinhos e com o thymos despontando em alta, não nos permitíamos esse despojamento. O assunto tomava outro rumo: era o carnaval dos adultos. Aliás, convém recordar que muitos dos adolecentes começavam a ter autorização, e a libertar-se do controlo apertado dos pais, para sair à noite e voltar de madrugada, a partir dos carnavais. E aí começava o lassar do controlo. Nesta senda, não é de admirar que muitos dos pequenos e pequenas viravam meio adultos, perdendo a virgindade nesse período de folia e muita libertinagem.

Dos carnavais, pode-se recordar que se centravam nos clubes, e deles os mais badalados foram os da Associação Africana, os do Sporting, com pouca expressão, porque estes esquecendo-se de que o carnaval é essencialmente uma festa popular, tentaram fazer um carnaval de elite que resultou num redundante fracasso. O carnaval que conseguiu êxito retumbante, quando completamente popular, foi o Carnaval do Benfica, sem dúvidas.

O clube, neste propósito o Benfica, organizava o Carnaval, solicitando não apenas a participação popular dos bairros da cidade, mas também das grandes empresas de renome na província, que davam o suporte financeiro e aproveitavam a deixa para publicitar os seus produtos, principalmente no chamado corso da inauguração e do enterro do carnaval, onde, nas viaturas, expunham os seus produtos e publicitavam as suas actividades. As pessoas, organizadas em grupo e suportadas pelas empresas, outras por iniciativas particulares, eram os chamados grupos foliões, dos quais recordo o da Padaria Nacional, o da Manica, o da 2M, o da Companhia da Zambézia, o do Bailinho, os Metralhas, os Chaves, os dos bairros já referidos, etc., etc.. A princípio, o Benfica, um pouco no sentido de permitir o envolvimento de todos, mas com pouca mistura, na hora do baile, durante a semana de carnaval, promovia dois bailes em simultâneo, um dentro do salão de festas do clube – no local onde hoje se encontra o chamado cinema Estudio 222 – e o baile onde a populção dos bairros se divertia à brava no pavilhão gimnodesportivo. Os conjuntos chamados a animar eram, por um lado, da elite, os The Blue Twisters, os Idavoli, a meio-termo, e por outro, salvo omissão, os Cometas, que actuavam no gimndesportivo, aliás este passou a ser o conjunto-mor e símbolo do som carnavalesco, com o exímio viola solo Bébé Temporário e o inesquecível baterista Cassamo, que numa daquelas então crónicas falhas de energia, pôs-nos, sozinho, sambamdo para cima de 45 minutos, aguentando com o tranco. A animação de fora era de tal intensidade que os de dentro não resistiam e vinham para fora. Até que, num desses finais, o Carlos Beirão, que também era vocalista de um dos conjuntos de dentro, chamou à realidade dos factos os organizadores, em pleno microfone, advinhando que o carnaval unificado teria outra dimensão. Escutado que foi o apelo pelos organizadores, unificaram-no; o carnaval, do ano seguinte em diante, passou a acontecer exclusivamente no pavilhão. Teve um salto de qualidade e intensidade emocional inefável; a sua fama saltou as fronteiras da cidade e viajou pelo país, ganhou outra vertigem. Nos anos subsequentes, as romarias de outras cidades para participação no carnaval da cidade de Quelimane foi explosiva; passou a figurar nos assuntos da temporada, com repórteres especiais dos orgãos de informação a deslocarem-se para a cidade, para descrever a folia dos zambezianos, a miscigenação de culturas, cores e raças, bem como dos diversos extractos sociais, num convívio particularmente interessante, fazendo dessa festa uma academia de convivência. Quem não se recorda das grandes reportagens do João de Sousa, da RM, fazendo jus à fama ganha pela festa de marca quelimanense, como também das reportagens, quer fotográficas, quer escritas, da revista Tempo, altamente conceituada na altura?! E isso sem falarmos da culinária única, que era posta nessa montra em que a cidade se transformava. Recordo-me, por exemplo, do grupo de foliões organizados vindos de Nampula, pertencentes à casa Guida, salvo erro. Bem como de sambistas exímios na arte de mexer o esqueleto, como o famoso Aligy, que, com uma simulação, pôs um guerilheiro recentemente chegado das matas, no carnaval imediatamente antes da independência, num histórico tombo com a sua Kalachnikov a tiracolo. No último dia de cada carnaval reinava a ansiedade de saber afinal quem seriam o rei e a rainha, e qual o grupo mais folião.

Aconteceu a independência, com todas as suas mutações e matizes, mas a essência carnavalesca da cidade ficou, ainda que em estado latente. Passados os complexos próprios de um país criança, a festa de carnaval foi retomada com as devidas e necessárias adaptações, numa nova miscelânea de sons e rítmos, passando pelos trajes. Desde o Pio Matos até ao presente mandato do Mano Mané, o município assumiu a gestão e organização do carnaval, e é feito na rua, ao jeito do sambódromo do Rio de Janeiro, numa festa eminentemente popular, onde a criatividade e habilidade dos bairros é posta à prova. Para mim, o senão está, decididamente, no som, que não consegue ter a potência requerida, bem como pelo facto de não cobrir todo o percurso da área de dança, com colunas estratégicamente localizadas. Outro senão, ao que me disseram já resolvido, isso porque este ano estive ausente, era o facto de a área dos comes e bebes estar distante da área da folia. O combustível dos foliões é a bebida e a comida. Parabéns pelo facto. Mas resolva-se o óbice som e ver-se-á a qualidade daí advinda. Explodir-se-á de novo, a outros níveis, para gáudio de todos.

Né Afonso, uma grande figura de Quelimane

Evocação de Né Afonso, por Fátima Ribeiro

Abril 17th, 2017 Posted by Gente da nossa terra 0 thoughts on “Evocação de Né Afonso, por Fátima Ribeiro”

Ernesto Edgar de Santana Afonso, Né Afonso ou simplesmente Né, foi e ainda é uma das figuras mais populares da terra dos Bons Sinais, atravessando épocas e gerações.

Em Quelimane nasceu, a 23 de Fevereiro de 1950, e, ensinado pela irmã mais velha, começou a aprender piano com 5 anos de idade, pois seu pai, também Ernesto, fazia questão de que todos os filhos – Edma, Élia, Ernesto Edgar e Eunice, curiosamente todos nomes começados por E – tocassem este instrumento.

Aos 12 anos, no dia do seu aniversário, estreia, com os amigos Arnaldo Miranda (xilofone), Abel Frank (viola), Quicas Regado (bateria), Amílcar Domingues e Pacheco (acordeonistas), José Carlos Beirão e Anselmo Duarte (contrabaixo), o TAQ Júnior, conjunto do Teatro Amador de Quelimane criado por António Regado, que, já autónomo, passa a Jovens Apaches, actuando em bailes e outras festividades. Colabora com o Emissor Regional da Zambézia no programa infantil “No Mundo da Pequenada”, de Graça Serrano (Tia Locas) e Elisa Viegas (Tia Lili), acompanhando as crianças que ali iam cantar, e tem uma curta estada n’ Os Lordes. Prometendo-lhe um órgão, novidade na altura, e apoio nos estudos, Fernando Adão, empresário do The Blue Twisters, consegue arrancá-lo para este grupo, o que vem a ser um grande impulso na sua vida artística. Nos shows musicais em que actua, realizados sobretudo no Benfica e no Cinema Águia, surpreende a assistência, tocando por vezes de costas o seu novo instrumento, um Philips de madeira. Na Boîte da FAE, a Feira das Actividades Económicas que anualmente tinha lugar, ou noutros locais da cidade, acompanha famosos cançonetistas de Lourenço Marques, como Natércia Barreto, Zito Pereira, Berta Laurentino, Liliana Matos, e o humorista Parafuso. Liliana Matos ganha um prémio em Angola com uma das suas composições, e Natércia Barreto grava em disco duas outras, que logo se popularizam: “Chitato” e “Muianá”.

Mudando-se para Lourenço Marques, frequenta e conclui o curso de educação física, sempre mantendo a actividade de músico profissional. Ensina música na escola onde estudou, o Instituto Nacional de Educação Física, toca em clubes nocturnos como o Topázio, a Cave ou o Pinguim, e faz parte do popular Conjunto de Renato Silva. Ingressa na Rádio Moçambique, onde se torna o “Tio Turutão Sabe Tudo” de todas as crianças do país que nascia. Entre outras, ficaram célebres as suas canções “Marrabentinha” e “Bons Sonhos”, que durante anos se ouviu na televisão indicando às crianças a hora de se irem deitar. Grava, em 1984, um LP com esse nome e, no ano seguinte, o disco “Dez Anos”, que assinalou a primeira década de independência. António Alves da Fonseca, na altura Director Comercial da Rádio Moçambique, apadrinhou a iniciativa. Grava ainda outro disco, este com histórias infantis, contracenando com Álvaro Belo Marques, importante figura da comunicação social. É activa a sua participação no teatro radiofónico. Escreve, adapta, traduz, interpreta e dirige actores para um programa idealizado por Leite de Vasconcelos. Seu livro “Eu Não Sou Eu e outras peças de teatro”, datado de 1981, reúne quatro das peças apresentadas. De sua autoria é também o seriado “Unahiti, o guerrilheiro”.

Como se não bastasse, dois factos há que acrescentar a este rico historial. Em primeiro lugar, o seu papel na criação de uma orquestra juvenil, com a colaboração de Yana, então ligado ao Ministério da Cultura. Diz João de Sousa, um dos mais antigos radialistas moçambicanos, que essa orquestra “foi o embrião para a formação duma Escola de Música, inicialmente tutelada pela Rádio Moçambique e actualmente [Maio de 2016] de natureza privada, que, segundo Yana, pode vir a ostentar brevemente o nome de Né Afonso.” Em segundo lugar, a ligação que teve à Deutsch Welle, a rádio internacional da Alemanha, país onde também residiu, e de onde regressou a Moçambique, continuando a trabalhar na RM.

Né Afonso com amigos de Quelimane, em Maputo

Né Afonso com amigos de Quelimane, em Maputo, depois do seu regresso a Moçambique

Ernesto Edgar de Santana Afonso, o nosso Né, faleceu em Portugal a 13 de Maio de 2016, pouco tempo depois de um dos calorosos encontros de zambezianos naquele país, onde estiveram presentes vários familiares e amigos. Partiu naquele dia em que, também para ele, “Chegou a hora de fazero oó”, tão fatigado que estava.

De Né Afonso ficará, certamente para sempre, uma grande saudade no coração de todos os quelimanenses do seu tempo e de muitos, muitos moçambicanos e outros.

 

Ouça aqui “Chitato”, música de Né Afonso:

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