Posts in Caleidoscópio

Quelimane e a sua história, por Abdul Carimo

Agosto 2nd, 2017 Posted by Caleidoscópio 0 thoughts on “Quelimane e a sua história, por Abdul Carimo”

A história de Quelimane é parte da História de muitas histórias que fazem a História deste multiétnico, cultural, religioso e colorido Moçambique.

O que se conhece sobre Quelimane é-nos transmitido por via da tradição oral e de algumas obras escritas, sendo datada de 1154 a primeira notícia, através de um cronista árabe de nome El Edrisi, no relato perante a corte italiana, referindo-se a “Dendema”, um burgo situado na área da cidade, supostamente antepassado do Quelimane presente: Diz a tradição que Vasco da Gama, ao chegar à terra de Quelimane, entre 22 e 25 de Janeiro de 1498, entrou no estuário do rio Qua-Qua, que baptizou como rio dos Bons Sinais; ao desembarcar, implantou, na praia de Palane, que na altura denominou de S. Rafael, um pesado padrão de pedra com as armas reais de Portugal e a cruz lá talhadas.

Passando por várias transformações políticas e administrativas, desde a sua fundação, Quelimane foi, ao longo dos séculos, povoado árabe, feitoria, vila, nome de distrito, circunscrição e cidade, e por ela passaram diferenciados povos, antes dos portugueses, com objectivos puramente comerciais, subordinando-se à Capitania do Sena em 1500. Nos primórdios dos anos 1600, passa a ser governada por um capitão de Feira e, em assuntos de justiça, sob a esfera da Relação de Goa. Foi nesta época que se introduziu a Política dos Prazos, tendo uma tal D. Maria da Guerra aforado várias terras.

Quelimane integrava, no século XV, a rede comercial muçulmana dominada por Quíloa, que se estendia por vários pontos da costa oriental africana. A sua fundação relacionou-se com o alargamento dos centros de exploração aurífera para o norte do planalto Karanga, acompanhando a expansão do Estado de Monomotapa.

A presença continuada dos portugueses está registada desde 1544. Nos primeiros anos de seiscentos, aumentaram o controlo da região, após a cedência das minas do Monomotapa, pelo Tratado de 1607, com a colonização do Vale do Zambeze.

A concorrência europeia, patente nos cercos holandeses à Ilha de Moçambique em 1607 e 1608, constituía uma ameaça à hegemonia portuguesa na região, suscitando ordens recorrentes da coroa para fortificar as trocas do Zambeze, cabendo ao general D. Estevão de Ataíde (1610-1613) a construção do forte de Santa Cruz, na Ponta Sul da Barra.

Subsequente ao Tratado de 1629, em que o mutapa Mavhura Mhande se reconheceu vassalo da coroa portuguesa, foi gizado um novo programa régio de colonização. A região do delta, antes sujeita ao capitão de Sena, foi dividida, em 1633, em duas capitanias, a do Luabo e a de S. Martinho de Quelimane.

Durante Seiscentos, Quelimane afirmou-se como o porto de entrada no Zambeze, em detrimento do Luabo. A entrada na sua difícil barra, com restingas de pedra e bancos de areia, exigia marinheiros experientes, os pilotos muçulmanos idos de Moçambique.

Cerca de 1634 notava-se uma dúzia de casas ao longo do rio, e no final da centúria elas eram 14 ou 15. Os edifícios cobertos de colmo e raramente de telha eram fabricados mormente em taipa e as habitações eram rodeadas de hortas e cercadas por fortes paliçadas. Em volta, distribuíram-se vastos palmares e pomares e as casas dos escravos. Na povoação, existia uma igreja, a de Nossa Senhora do Livramento, paroquiada pelos jesuítas, o hospício dos dominicanos e a casa dos padres da companhia de Jesus. No espaço urbano, destacava-se o Chuambo, um forte de madeira, sem guarnição militar, que abrigava os moradores das investidas dos chefes africanos. A pressão dos povos maraves, que, vindos do norte, acometeram nessa altura a região, contribuiu para que os macuas procurassem a protecção do forte português. Desenvolvendo uma identidade distinta, os macuas do litoral tornaram-se conhecidos por chuabos (gente do forte).

Depois de meados de Setecentos, no contexto das reformas subsequentes à autonomia de Moçambique em relação à India (1752), ocorreu uma notória dinamização do porto e da povoação. A coroa recuperou as ordens para fortificar a barra, após terem encalhado aí dois navios holandeses. A construção do forte de Nossa Senhora da Conceição, em Tangalane, na Ponte norte da barra, foi conduzida pelo engenheiro António José de Melo.

De uma povoação com cerca de 30 moradores, dos quais apenas 2 portugueses, em 1737, Quelimane passa à categoria de Vila na sequência de ordens régias de 29 de Maio de 1761, começando a gozar desse estatuto apenas em 6 de Julho de 1763. É instituída a câmara municipal, conservando o nome de S. Martinho de Quelimane.

As oportunidades do negócio esclavagista traduziram-se num assimilável aumento do número de moradores proeminentes: 20 em 1780; 30 em 1790 e 65 em 1822. Apesar do enriquecimento dos seus moradores e do interior das suas casas, a vila manteve-se como um conjunto de quintas dispersas por dois ou três arruamentos irregulares, frequentemente alagados. As novas edificações municipais, a casa da câmara e o pelourinho surgiram nos anos 1770. A igreja de Nossa Senhora do Livramento foi mandada reconstruir pelo governador e capitãomor general Baltazar Pereira do Lago em 1776, mas só foi concluída em 1786, por António de Melo e Castro.

No decurso dos anos oitocentos, a vila passa a capitania e capital do Distrito do mesmo nome, época em que já se exportava pelo seu porto, para além de escravos, ouro e marfim, dando-se início à criação das companhias majestáticas e outras de grande dimensão que se dedicam à exploração da copra, em regime de grandes plantações, substituindo os anteriores prazos.

A 24 de Novembro de 1853 é restabelecido o governo de Quelimane, vivendo nessa altura na urbe 355 cristãos, 120 muçulmanos e 17 escravos libertos.

Em 1857 dá-se início à construção do primeiro edifício destinado à Câmara Municipal, e em 1858 Quelimane é a capital da Zambézia, topónimo criado a 4 de Fevereiro do mesmo ano, vivendo na vila 9254 escravos e 59 libertos. Passa a sede de Governo em 1860.

Quelimane foi palco de grandes festejos, por ocasião da firmação do “Mapa Côr-de-Rosa” protagonizada por Capelo e Ivens, na tentativa de Portugal estabelecer a ligação entre Mocâmedes, no oceano Atlântico, e Quelimane, no Oceano Índico.

Em 1878, Quelimane assiste ao surgimento das primeiras revoltas camponesas, tendo tomado parte activa na sua repressão o prazeiro Mariano Henriques de Nazareth e sendo, na altura, presidente da Câmara Municipal de Quelimane o prazeiro José Bernardo de Albuquerque. Os sobreviventes foram acantonados em frente à Central Eléctrica de Quelimane.

Quelimane foi desde sempre um centro cultural e literário, tendo editado o “Clamor Africano”, um dos três jornais periódicos, de combate à exploração colonial, fundado entre 1886/1894 pelo jornalista angolano Alfredo Aguiar, chegado a Moçambique em 1879.

Há referências de circularem em Quelimane e Tete selos próprios entre 1893 e 1913 e, apenas em Quelimane, entre 1913 e 1920.

De 1904 a 1922 saíram do porto de Quelimane trabalhadores recrutados para S. Tomé e Príncipe e para o Transval, registando-se, até 1907, a saída de 8141 trabalhadores. Nesse período, Quelimane acolheu a visita do Príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. Luís Filipe que, no ano seguinte, viria a ser assassinado juntamente com o seu pai, o Rei D. Carlos.

Em 1922 entra em funcionamento a linha férrea Quelimane-Mocuba e, no âmbito associativo, várias organizações socioeconómicas vêm os seus estatutos aprovados: o Clube de Quelimane e a Associação do Fomento do Distrito de Quelimane (1924); o Grémio Francisco Luís Gomes (1932); o Sporting Clube de Quelimane e o Grupo Desportivo Zambeziano (1936); a Associação Hindu e o Aeroclube da Zambézia (1937); o Sport Lisboa e Benfica (1954) tendo, nessa data, o Sporting Clube de Quelimane sido declarado Pessoa de Utilidade Pública e aprovado o Estatuto do Grémio dos Plantadores de Chá.

 


Fontes

Fotografia do Carnaval de Quelimane,

Os carnavais da minha memória, por Lo Chi

Abril 17th, 2017 Posted by Caleidoscópio 0 thoughts on “Os carnavais da minha memória, por Lo Chi”

Lo ChiSem dúvidas que o carnaval mais emblemático e marcante da cidade de Quelimane, no tempo antes e pouco depois da independência, foi o carnaval do Benfica.

Antes, porém, importa recordar que, antecedendo esses carnavais dos grandes salões ou dos ocorridos em campos gimnodesportivos, toda criança tinha o seu carnaval de bairro, quer fosse o bairro Kansa, o Vila Pita, o Sinacura, o Brandão, o Moreira, o Torrone, o Sangalivera, ou mesmo o Saguar ou o Mapiesua, em que os putos se juntavam em grupos de malta amiga, mascaravam-se, sem grandes requintes, e deambulavam pelo bairro, cantando e dançando, muitas vezes extasiando espectadores transeuntes, de tal jeito que estes acabavam dando-lhes uns trocos. Podemos situar essa actividade até ao princípio da escolaridade, na altura designada de ciclo preparatório, que seriam hoje a quinta e sexta classes claro com um matulão desocupado, normalmente descolarizado, como chefe de equipa e guardião do grupo. Lá para os quinze e desasseis anos, mais crescidinhos e com o thymos despontando em alta, não nos permitíamos esse despojamento. O assunto tomava outro rumo: era o carnaval dos adultos. Aliás, convém recordar que muitos dos adolecentes começavam a ter autorização, e a libertar-se do controlo apertado dos pais, para sair à noite e voltar de madrugada, a partir dos carnavais. E aí começava o lassar do controlo. Nesta senda, não é de admirar que muitos dos pequenos e pequenas viravam meio adultos, perdendo a virgindade nesse período de folia e muita libertinagem.

Dos carnavais, pode-se recordar que se centravam nos clubes, e deles os mais badalados foram os da Associação Africana, os do Sporting, com pouca expressão, porque estes esquecendo-se de que o carnaval é essencialmente uma festa popular, tentaram fazer um carnaval de elite que resultou num redundante fracasso. O carnaval que conseguiu êxito retumbante, quando completamente popular, foi o Carnaval do Benfica, sem dúvidas.

O clube, neste propósito o Benfica, organizava o Carnaval, solicitando não apenas a participação popular dos bairros da cidade, mas também das grandes empresas de renome na província, que davam o suporte financeiro e aproveitavam a deixa para publicitar os seus produtos, principalmente no chamado corso da inauguração e do enterro do carnaval, onde, nas viaturas, expunham os seus produtos e publicitavam as suas actividades. As pessoas, organizadas em grupo e suportadas pelas empresas, outras por iniciativas particulares, eram os chamados grupos foliões, dos quais recordo o da Padaria Nacional, o da Manica, o da 2M, o da Companhia da Zambézia, o do Bailinho, os Metralhas, os Chaves, os dos bairros já referidos, etc., etc.. A princípio, o Benfica, um pouco no sentido de permitir o envolvimento de todos, mas com pouca mistura, na hora do baile, durante a semana de carnaval, promovia dois bailes em simultâneo, um dentro do salão de festas do clube – no local onde hoje se encontra o chamado cinema Estudio 222 – e o baile onde a populção dos bairros se divertia à brava no pavilhão gimnodesportivo. Os conjuntos chamados a animar eram, por um lado, da elite, os The Blue Twisters, os Idavoli, a meio-termo, e por outro, salvo omissão, os Cometas, que actuavam no gimndesportivo, aliás este passou a ser o conjunto-mor e símbolo do som carnavalesco, com o exímio viola solo Bébé Temporário e o inesquecível baterista Cassamo, que numa daquelas então crónicas falhas de energia, pôs-nos, sozinho, sambamdo para cima de 45 minutos, aguentando com o tranco. A animação de fora era de tal intensidade que os de dentro não resistiam e vinham para fora. Até que, num desses finais, o Carlos Beirão, que também era vocalista de um dos conjuntos de dentro, chamou à realidade dos factos os organizadores, em pleno microfone, advinhando que o carnaval unificado teria outra dimensão. Escutado que foi o apelo pelos organizadores, unificaram-no; o carnaval, do ano seguinte em diante, passou a acontecer exclusivamente no pavilhão. Teve um salto de qualidade e intensidade emocional inefável; a sua fama saltou as fronteiras da cidade e viajou pelo país, ganhou outra vertigem. Nos anos subsequentes, as romarias de outras cidades para participação no carnaval da cidade de Quelimane foi explosiva; passou a figurar nos assuntos da temporada, com repórteres especiais dos orgãos de informação a deslocarem-se para a cidade, para descrever a folia dos zambezianos, a miscigenação de culturas, cores e raças, bem como dos diversos extractos sociais, num convívio particularmente interessante, fazendo dessa festa uma academia de convivência. Quem não se recorda das grandes reportagens do João de Sousa, da RM, fazendo jus à fama ganha pela festa de marca quelimanense, como também das reportagens, quer fotográficas, quer escritas, da revista Tempo, altamente conceituada na altura?! E isso sem falarmos da culinária única, que era posta nessa montra em que a cidade se transformava. Recordo-me, por exemplo, do grupo de foliões organizados vindos de Nampula, pertencentes à casa Guida, salvo erro. Bem como de sambistas exímios na arte de mexer o esqueleto, como o famoso Aligy, que, com uma simulação, pôs um guerilheiro recentemente chegado das matas, no carnaval imediatamente antes da independência, num histórico tombo com a sua Kalachnikov a tiracolo. No último dia de cada carnaval reinava a ansiedade de saber afinal quem seriam o rei e a rainha, e qual o grupo mais folião.

Aconteceu a independência, com todas as suas mutações e matizes, mas a essência carnavalesca da cidade ficou, ainda que em estado latente. Passados os complexos próprios de um país criança, a festa de carnaval foi retomada com as devidas e necessárias adaptações, numa nova miscelânea de sons e rítmos, passando pelos trajes. Desde o Pio Matos até ao presente mandato do Mano Mané, o município assumiu a gestão e organização do carnaval, e é feito na rua, ao jeito do sambódromo do Rio de Janeiro, numa festa eminentemente popular, onde a criatividade e habilidade dos bairros é posta à prova. Para mim, o senão está, decididamente, no som, que não consegue ter a potência requerida, bem como pelo facto de não cobrir todo o percurso da área de dança, com colunas estratégicamente localizadas. Outro senão, ao que me disseram já resolvido, isso porque este ano estive ausente, era o facto de a área dos comes e bebes estar distante da área da folia. O combustível dos foliões é a bebida e a comida. Parabéns pelo facto. Mas resolva-se o óbice som e ver-se-á a qualidade daí advinda. Explodir-se-á de novo, a outros níveis, para gáudio de todos.

SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER

website developed @ HUND 2017